quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

fria cai a noite





           fria   cai a noite
     suspiro     gotas silentes

        pesar    alegria



quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

desperdiçado



encontro ecos de ti
por aqui e por ali
outro rosto e outra voz
e no entanto ainda nós
mas quando busco por mim
me encontro em braços sem fim

quem sou?  alguém que sobrou
a braçadas mil a mares
bravios, viu e abraçou
areias e novos ares

e grato por terra firme
pequena, e só, afirme
ser a vida uma alusão
a um terrível turbilhão
que a tudo draga e escoa
até mesmo as coisas boas




gramado algazarra





                  gramado           algazarra

             grito              bico            garra

                   na placa  :   " NÃO PISE"





terça-feira, 18 de dezembro de 2012

sábado, 15 de dezembro de 2012

no aterro das memórias



no aterro das memórias
ecos de ontem
nas raízes do amanhã
escravismo onírico
da pena que escreve
históricas glórias
onde menos contem
bravuras vãs
no fio de bravatas
de eus-líricos
em febril verve
e pura basófia



acorrentados



atormenta a tormenta
a corrente do vento
que liberta açoita
revolta o mau tempo




sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

bem mal


quando estamos mal devemos parecer bem?
como saber-se mal se parece-se bem?
será um bem fingir que nada há de mal?
será que o bem querer por si só vence o mal?



sprimenta - quindim



spray
nos
olhos

arde
muito
e dói

gotas
rolam
na face

cai sal
no meu
quindim



cadeia de gordim - quindim



mas
que
droga!

meu
quindim
cabô!


sobrô
pudim!


fazê
dieta

serei
presa da
fome


gula - quindim



tadim
do bichin
comeu
tanto
quindim
qui as
lumbriga
num deram
conta
deram
no pé
mesmo
di pé


pudim - quindim



pudim
meu
docim
tu
és
puro
sabor
quero
sempre
assim
pagar
teu
valor



quindim - a forma poética que mexe com teu estômago

quindim - a forma poética que mexe com teu estômago

quindim - o que é?

quindim, além de ser um doce saborosamente brasileiro, é uma novíssima e revolucionária forma poética para pessoas antenadas e de bom gosto, criado por Nilma Pessoa em 2012.  Ao criar novos quindins, favor lembrar de sempre mencionar a criação dessa dadivosa forma a Nilma Pessoa.  Não, não quero nem preciso de agradecimentos ou comentários ou tapinhas nas costas, apenas meu nome estampado em todos os cantos.

enfim, ao quindim em si:

é um formato concentrado de doçura, exatamente como nosso infartante doce.  eis um exemplo para dar uma boa idéia:


tomei
chá
delicim
adocicado


não há nenhuma métrica, é totalmente livre, embora seja interessante pôr cada palavra em uma linha para máximo aproveitamento de espaço e possivelmente da barra de rolagem do navegador, o que ao leitor traz mais prazer e a revigorante sensação de ter lido um épico

o importante é concentrar bastante sacarose para ter máximo impacto, como neste outro:


com
flores
coloridas
nas
mãos
esmaltadas
a
cheirosa
florista
fechou
rechonchudo
negócio
e
saiu
radiante
pra
tomar
um
geladim
e gostosim
milk
shake


adjetivos: quanto mais, melhor.  neologismos brasileiros fazendo referência a quindins também são bem-vindos, como geladim

enfim, espero que apreciem o novo e radical formato poético inventado por Nilma Pessoa e me deem todo o crédito, e quem sabe participação em possíveis lucros.  A união faz à força!  Mobilizai-vos em pirâmides humanas, que estarei sempre no topo prestes a ajudar no que for.

mãos à obra, e que venham mais quindins, que há "farta" de doces para tantos corações amargos e rancorosos

e, lembrando uma última vez, não esqueçam de mencionar "quindim, a forma poética que mexe com teu estômago, por Nilma Pessoa"

abs

DESGOSTO



DEGUSTO MAU GOSTO MAL PASSADO
DESGOSTO NO ROSTO POUSADO
INDIGESTO GASTO PESADO
DESGASTO SOLA SAPATO
PESCO PARCO PESCADO
GESTICULO PRO GATO
REGISTRO ESCABRO
PISO NO RABO



lá e cá, um corte





lá e cá, um corte
a morte ante a vida cai
sai forte o bonsai




intempestivo



do topo de suas frondosas sapiências
farfalhavam árvores todas animadas
pela mudança que se operara no vento
que rondava febril e suspirava

rodopiava no chão almejando nuvens
brincalhão trazia de súbito notícias
a rostos incautos, o susto e o lamento
perdeu-se o balé da esvoaçante saia

no horizonte olhares esmiuçantes punem
os excessos e aspirações da pobre brisa
num suspiro o arrebol cai morto, agourento
sonhos desfeitos antes que a noite caia


portas fechadas


tá tudo fechado
todas as portas trancadas
não há saída, não há entrada
não corre vento
todas as direções são desastrosas
todas as vias nada vêem
todas as mãos corrimões
e onde pisam os pés
é solo sagrado
não há saída, não há entrada
há um espaço fumacento
onde com versos o eco em prosa
responde ao meu inquérito
como um psicanalista
e para quebrar o silêncio
acrescento um tom de voz
e não entra ou sai
apenas fica

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

um lugar comum



em um
lugar
comum

cabem
mil e um
comuns

em
casas
comuns

casam
moram
morrem

um a um
fazem
mais um

mais um
e um
topa

topo
de todo
mundo

e fundo
fundo
cai

quando
sem um
comum

fica
lugar
nenhum



sentimentos



sentimento amor pele pênis vagina
sentimento suor esperma virilha
sentimento pele coração camisinha
sentimento dor sofreguidão definha
sentimento amor vagina coração
sentimento vagina pele suor pênis
sentimento pele bunda seio cio
sentimento flor abelha picadura


quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

marasmo




                   marasmo
           no mar         pleonasmo
               no ar      asma




terça-feira, 11 de dezembro de 2012

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

na face a derrota





na face a derrota
o cenho franzido
vencido por riso






obscura noite




obscura noite
bruxa alheia ante deus chama
gato preto mia



elos


vista turva
toga torta
arrota rota
traça curva
uva passa
chuva fraca
dá meia volta
solta e arreia
vaca e planta
semeia creia
pão na janta
ceia santa
canta chuva
dorminhoca
nuvem murcha
marcha lenta
leva embora
leve roda
roda e gira
mexe e tira
força e dobra
pão dobra
e sobra
farelo

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

o fim do ateu


após breve soneca pela eternidade
niemeyer acorda e sente frio e nada
chama e reclama mas mesmo eco se cala
arrisca então uma linha pela infinidade
concluída então mais essa obra
faz-se ponto final e se desdobra



esboça um sorriso





esboça um sorriso
uma abertura entre nuvens
o sol amarelo






quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

vence qualquer mal odor





vence qualquer mal odor
desodorante barato
e de quebra traz o amor
querendo estar nos seus braços






pra reviver o carinho




pra reviver o carinho
abrir a janela basta
vento traz do passarinho
canção que saudade afasta





trama




guardada em mim
mal incontida
fio secreto
da ilusão

amortecida
em renda fina
rende-se a vida
à minha mão
e só dejetos
sobram ao fim




ao comprar bijouteria

foto de Wilson Madrid




ao comprar bijouteria
em cartaz, o preço: um livro
folheados eu teria
e com folhas alma livro





inspiração nula





inspiração nula
olho pra flor, ela muda
um suspiro sai




terça-feira, 4 de dezembro de 2012

raios do solo





   em raios           do solo
       árido     brotando rubros
   espinhos        ao sol





jardim de saudades





jardim de saudades
no chão, folhas esquecidas
no banco, ninguém




banco de jardim
abandonado resiste
aos pés, folhas mortas

 


em meio ao jardim
folhas e troncos caídos
e banco vazio




cabana e banana





cabana e banana
da viagem descansado
Bashô na casca cai






minha homenagem ao grande mestre japonês.  quem sabe não foi um episódio assim que o fez cunhar o apelido? ^^; bashô = bananeira.  tinha uma ao lado da sua cabana.  não ficou 5-7-5 perfeito, escorreguei na última sílaba também (de propósito)... rs

termos



falta termos
mais termos
técnicos
frio quente
termos
estática
para termos
logia
temos tempo



segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

de dia e de noite





de dia e de noite
olhos correm    no horizonte
deita céu a mar




violência




violam-se vidas
violam-se templos
viola dedilha-se



me acompanha desde o útero





me acompanha desde o útero
minha amada solidão
mas bem sei que sendo adúltero
não terei mais sua mão





sombra


de dia, encolhida aos meus pés, minha sombra
me acompanha calada, aonde quer que eu vá
não importa a dureza da trilha de lá
cá está ela, a quais aventuras sejam, pronta

e se reclamo que sua mudez me afronta
e da irritação que sua imitação me dá
sua face muda volta e me oferece já
da mesma irritação com que de mim zomba

por fim, o entardecer chega e aos prantos tomba
e vendo-me livre de sua presença
ponho-me a pensar sobre os fatos do dia

e sem a luz do sol são pura agonia
a aspereza das pedras a mente esquenta
e o que está por baixo ganha vida e assombra

domingo, 2 de dezembro de 2012

não há sono, não há paz





na selva noturna
não há sono, não há paz
medo à espreita jaz







no bosque à noite
não há sono, não há paz
há medo e há foice








no mar sob o luar
não há sono, não há paz
sombras abissais





uma aurora urbana

Foto de Lenapena




uma aurora urbana
entre prédios, luz emana
do concreto, aflora




sexta-feira, 30 de novembro de 2012

no fosso entre pedras





no fosso entre pedras
ponte colorida, na queda
d'água partida




sequóia gigante





sequóia gigante
à sombra, musgos e líquens
lambem suas raízes





ando sonhando







ando sonhando
sonho andando
desperto
de olhos abertos
dormente
vou em frente
e os obstáculos
de tão surreais
nem os pulo
mais
simplesmente
qual sonâmbulo
pelas ruas deambulo
que coniventes
sinalizam verde
ao ceguinho
passando




na ânsia de me amar





na ânsia de me amar
embarcas ao mar à vela
e lanças-te a me amarrar
à proa de tua lapela





por onde começo?



por onde começo?
nem por início ou fim
nem por alimento ou dejeto
pontas soltas sem nós
extremidades sem graça
dum vasto nó bem bolado
à espera d'algum desenlace
nasço todo dia e morro
abaixo rolo de tanto rir
brinco de pega ladrão
em pijamas acorrentados
a escrivaninhas exíguas
pena à mão, peso nos pés
para não poder partir
se em dois ou mais
tanto faz
importa mais o voo
bem leve ou enjoo
e plainando assim
vou ao encontro
do âmago do furacão
onde sou arremessado
contra sensos e censores
tesoureiros d'amores
picotando parede e chão
e a queda não é brusca
é não, é busca por motivo
que acho no redemoinho
d'amarguras em meu ânimo
revolvendo em meu umbigo



chucro na lama clama




chucro
na lama
clama

caiu
sem ver
o chão


muito
fundo

berro
morreu
rouco




luna





no mundo da lua
voo de vento em popa
até cair dura
de cara na sopa





quarta-feira, 28 de novembro de 2012

pérola no ar





pérola no ar
alva reluz e seduz
quebra-se no mar





eu moinho



eu moinho
sozinho eu e o sol
ou a sós na chuva
rendido ao tempo
do vento colhendo
uivos e lamentos
e com raiva súbita
minhas entranhas
remoem tudo
e engrenagens ocas
moem trigo seco
eu do trigo
faço pão
e eles dão forças

a asas de vento
de passarinhos

um sopro de azul





um sopro de azul
hasteadas velas brancas
singram céu e mar





contrastes do cinza





contrastes do cinza
água menos cristalina
mais viçoso verde






ao suave toque





ao suave toque
é marmóreo o arrepio
lua de cristal





cá envergonhado





cá envergonhado
nem deu as caras o sol
chora no lençol




terça-feira, 27 de novembro de 2012

no tempo uma pausa








no tempo uma pausa
um momento estanque
turvo ao olhar fêmeas curvas





fumo


fogo e fumaça é coisa do capeta

deus é só nuvens, ar fresco e folhas verdes tornados possíveis pelo fervor do sol

e as folhas verdes do pulmão do mundo à cinzas voltam e desvastam o teu

minhocas no solo





minhocas no solo
cegas ao sol, furam fundo
corroem defuntos






banca de jornal





banca de jornal
notícias escapam aos olhos
na brisa que corre






metasemântica consumada





             a fera           consome
        mortal fome e    carniceira
             sorri a          caveira




acima o haicai consumado

abaixo as crases ressentidas e as vírgulas sem sentido consumidas


`,,`




atlas





dos ombros o peso
retirei e devolvi
aos ombros de atlas




das omoplatas
retirei enorme peso
deixei para atlas






pisoteada





pisoteada
sobrevive rasteira a grama
indicando a trilha





segunda-feira, 26 de novembro de 2012

domingo, 25 de novembro de 2012

num curso no rio





num curso no rio
só rola seixos pra baixo
reprovado rio





no fio da katana





no fio da katana
luz,
arte, flama e, num instante
um vil fio de sangue





digo-te algo controverso





digo-te algo controverso
que entre as folhas jazendo ao chão
colhi o desabrochar inverso
de algo que já tive em mãos





gigante universo





gigante universo
tão longe, tão perto
cabe num haikai em verso





ouriversaria





ouriversaria
mil filigranas douradas
nas faces coradas





chique restaurante





chique restaurante
no cardápio, peixe cru
preço delirante






celestiais sombras





celestiais sombras
árvores curvam-se ao vento
no pio, um lamento






andorinha anda





andorinha anda
cisca e saltita e me vê
e voo levanta





frutos vermelhos





frutos vermelhos
bem agarrados aos galhos
o mato é rasteiro





sirene noturna





sirene noturna
passos em fuga ao aviso
"a mata é do grilo"





partiu a caneta





partiu a caneta
em busca de inspiração
caiu na sarjeta






partiu a caneta
em busca de inspiração
caiu na sarjeta



Ler mais: http://www.luso-poemas.net/modules/mycomments/index.php?start=20&mid=0&view=1#ixzz2DCIDl2dQ
Under Creative Commons License: Attribution Non-Commercial No Derivatives

centelhas da noite





centelhas da noite
no céu,
silentes, paradas
nas moitas, afoitas





sábado, 24 de novembro de 2012

na esquina, uma puta





na esquina, uma puta
intenso trânsito tenso
vermelho é o semáforo






desdenha-me


vem, rabisca-me todo
apaga-me da alva alma
do teu caderno

garatuja do inferno
de vida infeliz e breve
em meio a notas
em rodapés

sem pés não corro
do inevitável destino
a que se destinam
teus caros rabiscos
na sala de aula

nem tocam sinos
ou caem aos olhos ciscos
quando em voo leve
findo-me no lixo

na seda das dermes





na seda das dermes*
um fio prata adormece
fita ao longe a lua







* verso de K*

carícias e afogos





carícias e afogos
pedra, ela é dura, fria
mar, ele vai, vem





cheio e meio ônibus





cheio e meio ônibus
os passageiros, atônitos
veem uum tããão vaziiiiiiooo





sexta-feira, 23 de novembro de 2012

os sonhos dos outros


meus sonhos, a mim tão caros e pequeninos
pela maré cobertos de espuma, em areias
no abismo dormindo, encantados por sereias
sonham-se moradas de cavalos-marinhos

agora que se foram, a vida me ensina
navegar é preciso e em volta e meia
ao mar me dirijo, revolto, e pranteia
à dureza em minha voz, e à triste sina

tremo ante sua imensidão e numa fagulha
o sol a esperança reviva em minha vista
e sob os escombros dos sonhos, uma agulha

mera velha garrafa onde jaz uma carta
e ao lê-la sei-me tão pequeno que, otimista
com mais fé singro os mares em dobrada barca



quinta-feira, 22 de novembro de 2012

no sono das jóias





no sono das jóias
menina adormece e, bônus!
nem quis uma estória






passa colorida




passa colorida
pelo tempo envelhecida

tardia uva





onda concretista



numa onda
     concretista
   surfo
 como
       skatista
e muitos e muitos
tombos
tomo
 e que
    br o a
     ca  ra    eo
   lom
       bo na
         quedabrus canacalçada




cala a folha e cai





cala a folha e cai
no concreto da calçada
calca um haicai






sonhava mil aventuras





sonhava mil aventuras
com jóias de gente grande
já grande, as mil travessuras
eram um tesouro distante





terça-feira, 20 de novembro de 2012

suave fragrância!





suave fragrância!
flor ondulante na brisa
da selva na saia







co' olho na estrela




co' olho na estrela
minha vista faísca
úmida, rola centelha





plágio




há no plágio
algo de pueril
algo de hilário
de querer ser grande
por ardil
de colher só os grandes feitos
feito grandes pelos defeitos
das pequenas peças
que perseverante
o criador não baniu
o plagiador peca
pela omissão




samurai poeta






samurai poeta
saca afiada pena
e, zás!, voam pétalas




urna antiquíssima



urna antiquíssima
fora, ouro e cara prata
dentro oh! barata!

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

farfalhar de árvores




farfalhar de árvores
embaixo, um violino
num canto, um esquilo




acreditem ou não, vi do ônibus  agora há pouco essa cena insólita de um violinista embaixo das árvores na ponta da L2 Sul em Brasília.  não fui rápido no gatilho para uma foto, mas rendeu um haikai. o esquilo? devia estar em algum canto

teima a queimar no ventre




teima a queimar no ventre
a rosa da poesia
que cresce em ti persistente
regada a teimosia





sou ser do fogo incriado




sou ser do fogo incriado
sou víbora venenosa
sou cria que há criado
o fogo do amor na rosa





domingo, 18 de novembro de 2012

embate



fracasso, já diz o nome
é muito fraco e carente
e dá logo um jeito e some
quando sucesso é presente




trovejar



das profundezas das trevas
espinhos de luzes rosas
trazem clareza primeva
à cova dos trolls em prosa




sábado, 17 de novembro de 2012

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

the end


acabou
acabou
berrava o fim do amor
esganiçadas vozes
imolando-se por janelas
abertas ao trânsito na rua
quem dera fosse cheia a lua
e em ato último de terror
transtornado uivasse a fera
e a vampirella voasse
para longe da dor



pró-verso


pausa
parada
para o fôlego

fôlego
de quem fala
palavras e soletra

soletra
letras em sílabas
e rala e ralha

ralha
e malha
duramente
quem falha e fala
sem pausa
ou mortalha

arrefece
e controverso
profissão de fé
professa
 confesso
em verso

a vida num sonho


coube a mim dar a vida por encerrada
tanto mais cruel pelo tanto de lutas
por glórias aqui se lhe negando injustas
em tramas pelo estreito palco encenadas

fecham-se as cortinas, vai encarcerada
autora de finas rotinas, da arguta
compreensão da humanidade, e escuta
a indiferença da platéia ingrata

vai em silêncio mas nunca forçada
prenhe de idéias, voz amordaçada
ser canonizada por autoridades

e coube a mim este papel perverso
onde carrasco a eternizo em versos
a vida num sonho de posteridade

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

odisséia


confabulo à soleira da porta fechada
qual caminho a seguir dentre os tantos abertos
parecendo correto assumir o mais reto
ser melhor do que um torto, me lanço à estrada

caminhando entre matas e feras macabras
dou-me então por vencido e olhando mais perto
pela ausência de traço ou razão que venero
abandono essa reta que finda em nada

à saída da escura floresta, um rio
estampado com brilho solar me convida
e recusa não sendo possível, mergulho

não importa de qual forma nade, marulhos
me carregam por curvas por toda a vida
mas ao fim, desaguando em cidade me rio



segunda-feira, 12 de novembro de 2012

domingo, 11 de novembro de 2012

tormentas



tamborilar à janela
lá fora a vida
brota em fúria da guerra




bala perdida



bala perdida
mira no céu a ferida
pomba jaz em paz




te prefiro


te prefiro
às estrelas que ardem exuberâncias distantes
à revoada de pássaros tampando o céu em arrogância
à cintilância cegante do sol sobre a neve
ao erosivo ressoar do vento constante nas pedras
ao sedutor arco-íris enclausurado nas jóias

te prefiro mancha cinza sob papel azul
onde me informa e mais de mim desvendo

lendo o lento desdobrar de tuas formas
em caleidoscópico desenlace
quando enfim o toque de teus frios dedos
dedilham lágrimas mornas sobre a face


te prefiro
e da linha de tiro
com que me firo
te tiro


sábado, 10 de novembro de 2012

canção de baco


quando baco tem minha atenção
livra-me das musas o suplício
com olhar turvo vejo a mansão
de plutão pelos campos elísios

no subsolo da depressão
da terra oculta gemem em martírio
almas mil que justiça e razão
dos 3 reis livra ou condena o vício

verei essa terra quando sóbrio?
quando desperto do véu da carne
verei sentido com outros olhos?

não importa, a canção de baco
acalentando a alma que arde
esfria medos, torna-os fracos

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

tudo e nada


quem tudo tem nada quer
quem nada quer mulher
quer mulher tudo e nada
nada tem quem tem mulher


solitude


jogava a vida pelo ralo
como cruel deus d'amor próprio
que se cala enquanto falo
enrijecido em solilóquio



apologia



esculpida em palavras
despida de malícia
de culpa liberta








li o texto da Alice e lembrei deste que saiu outro dia

A Apologia, a descrição de Platão do histórico julgamento de Sócrates, é leitura deliciosa e obrigatória para entender muito do cânone do pensamento ocidental. lá vemos a origem de muitas frases e pensamentos célebres usados ainda hoje, fora o método socrático de indagar mostrado às últimas consequências

apesar da lógica impecável, não o salvou da fogueira das vaidades

também é a raiz do famoso "I apologise" dos que falam inglês para pedir desculpas. quem se des-culpa, tenta tirar de si qualquer culpa, portanto, se defende. aqui no braziu ignóbil é quase sinônimo de "propaganda para drogas", mas obviamente que é novamente sair em defesa de algo

nas mãos de deus


fui convocado a realizar um exame
de direção por escorregadia pista
chovia e não vi os sinais ou oculista
pilotando o videogame e foi um vexame



quero um doce


então te mando um daqui
embora sem afetação
pois doce bastante é o caqui
para que mais se adoce em vão



o x da questão


fixe portanto
vixe!, no entanto
não sei se como taxi
ou se como taxa
indigesto mas ainda melhor que tóxico
que acinta quando os mais pernósticos
pronunciam-no com ch :p


lixas


lixar-se faz bem
e bem feito até
a unha do pé
encanta alguém



suspiro


com tanta macaquice
soltou vovó suspiro
que em pirueta e giro
liberto sempre quis-se
 

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

sorte


sou um homem de sorte
perdi tanto pela vida
que nada me furta a morte



dia frio


dia frio
mendiga migalhas
engole do chão
toma por música
chuva e trovão
e do motor
veste fumaça
verte cachaça
sonha que dorme
e cai do colchão
no jornal que acoberta
eleito algo alguém foi
com brio

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

saudosa idade


todos temos saudade
de nós e de nossa voz
e do eu que permaneceu
na foz da tenra idade



indagações primevais


ficou no ar
o indagar louco de ti
nas asas do colibri


máguas


admirava o simplório
o plúvio voo das águias
quando de súbito águas
rasgam rasante seus olhos



a inveja é uma pedra


no meio do caminho havia um poeteiro
caído e inerte, sobre poça ensanguentada
com flores enfrentava mil dissabores e meio
e a cabeça ao meio foi partida e semeada

estou me lixando

estou me lixando
para os espinhos às minhas costas
para sorrisos caninos nos calcanhares
para a sanha da pomba e do musgo
para a sombra que me desbota

estou me lixando
para as vociferações do vento
para a lamúria e lamento
da lama da chuva e dos elementos

estou me lixando
para as andanças e desventuras
as matanças e ternuras
do homem de barro e outras feras
por essa esfera de terra

estou me lixando
para o lixo acumulado
em córregos após a cheia
e impropérios tatuados
em pedestais de areia

estou me lixando
me descascando
limando e rimando
por puro prazer
de tudo e de todos
me despir

terça-feira, 6 de novembro de 2012

penúria


pássaro à mão
eis o bruto
já quase surdo
sorvendo canção
do grito mudo
da dura pena
do apertão

a vida e a paz


a vida
é dor e cansaço
é diária agonia
e inchaço
a paz
é pelos campos semeada
ao fim de perdida batalha
onde soldado raso
jaz


segunda-feira, 5 de novembro de 2012

da criação


a criação é um grande mistério
é cria de fria noite de inverno
d'autor em indolente hibernação
onde do sonho brota gestação



ruminância


é muito divagar para ruminantes
que saboreando sem pressa o pasto
com expressão tão alheia e vacante
parecem vagar pelo cosmos vasto



domingo, 4 de novembro de 2012

mergulho matinal


um mergulho na aurora
das alturas gravíssimas
em uníssono ora
o sol lá ré sí rima


pasteur sentimental

sedimentos de saudade corroem-me as veias
e por rubro insano rio remo delírios
e nele afogo calamitosas colcheias
e semínimas em dó por sol em martírio

às margens azaléias e rosas e lírios
dobram-se ao vento e amor lhe confidenciam
mas outros gritos soltos em pragas e cios
apossam-se da terra e a colheita adiam

o sol bate mais forte e com arrepios
toda sorte d'águas de mares e de rios
levantam-se vaporosas e retumbantes

e dos ares brota música, em colcheias
e semínimas, volta alada que incendeia
os campos e gorjeia cores no semblante

do despertar

um qualquer macaco
deu-me uma banana
e naquele ato
passou uma semana
quando dei por mim
estava pelado
em meio a um jardim
sem muros ou lados
à beira dum lago
do sol quis a chama
e o mesmo macaco
deu-me outra banana
de dentro do lago

sábado, 3 de novembro de 2012

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

infindo

lançam-me à cova dez mil braços em tumulto
repartindo entre si tesouros duma vida
achada em calhamaços e folhas partidas
donde se encontra pouco mais que mero vulto

tampam-me o caixão e não ouço mais insultos
solene adentro a escuridão oferecida
em total solidão a não ser parasitas
a roer-me a capa e alguns papéis avulsos

mas algo à deriva de mim cá permanece
ao longo de vidas que florescem e falecem

cultivada pelo espanto de novas vozes

do canto onde repouso ouço-lhes o canto
e sempre que posso ao seu clamor me levanto
e o mundo inundo de leitos, rios e fozes

diálogos penianos (alguns diálogos brochantes)

dialogados em
http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=234502
http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=234288



aprenda a usar mais a cabeça de cima e pare de ejacular teu pólen em flores alheias




pequena estrelinha
baniu-me do céu
e só de birrinha
fiz-lhe um fogaréu




podes queimar vírgulas e vogais
no afã de tuas fogueiras vãs
e aproveita o calor dos carnavais
e queima a língua em frases pagãs





que a pessoa seja pequena e tacanha ainda vá
mas que não saiba rimar senão ar com mar
ou amor com dor de estrelinha bonitinha
já é demais ofensa tamanha ao meu indagar




cara, essa foi profunda
será que enfim do teu cérebro
saiu algo que não grelo?
ou talvez saiu da bunda?




ninguém me escuta
me faço cego
e astuto nego
da verve a culpa




duas sombras me seguem
a do sol e a da lua
não importa que neguem
minha face obscura



quinta-feira, 1 de novembro de 2012

falso profeta

sou um falso profeta
dos amores e salmos
e perdões em oferta
com que todos são salvos

sou um falso profeta
deixo claro em meus versos
que a dor no peito aperta
quem a mim é averso

sou um falso profeta
que por incertas linhas
teço a trama que afeta
tua vida e definha

sou um falso profeta
com promessas d'amor
nas provações abertas
por meus versos de dor

reflexão

essa finitude em meio ao infinito
esse despropósito em frente ao espelho
essa busca incessante por sair da sombra
isso tudo move e comove e ainda faltam palavras
devemos inventá-las para dialogar com o indizível

será que você me lê?
será minha pena teu instrumento?
o que quer de mim?
serás tão solitário quanto nós?

é como ler uma obra póstuma e ouvir o autor
mas não poder questionar ou mesmo aplaudir

quis me mostrar algo e te dei as costas
talvez, talvez um dia

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

encanto perverso



encanto perverso
luar sobre trigal
prata, ouro e verso




celeste

incomoda-me o plano azul do céu
sem pássaros n'afoita revoada
ou nuvens cobertas a sol e mel
lembra-me página em branco, um nada

que ao menos da linha do carretel
pipas piquem-lhe as veias e trovoadas
d'antigas cantigas rasguem-lhe o véu
dessa serena viuvez desbotada

quem sabe assim não lhe eclode alegria
no prazer em raiar um novo dia
despertada com orvalhada tez

antes toda a paixão das intempéries
que a quem vivo queima, arde e fere
que à sombra sucumbir em placidez

do nascimento



homem sob azaléia
sob o cabelo, pólen
germina idéia



terça-feira, 30 de outubro de 2012

_aixão

não sabia se beijava ou se ria
o mundo era um tolo e se perdia
de vista e da estrada curva em parábola
dando nós em lábios turvos mandrágora

tece-me aos olhos prateados rumos
novos a passos fiados com aprumo
encontra-me um lar em ruas estreitas
onde jaz e gorjeia à minha espreita

quero à tua sombra o frio enlace
que vaidosa à fogueira abrace
consome-me pó em teu fugaz seio
suspira-me à face teu devaneio

coincidente

a igreja só trocou Zeus por Deus
Sócrates platônico por Jesus dos milagres
e Musas das volúpias por mil padres
mas o vinho de Baco permaneceu

sabes que não noto em ti nada digno de nota?

então tu a tudo anota
do que digno é de pena
e com eles faz poema
e quiçá uma anedota

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

d'alma

é da alma ou do Espírito
que recebe-se o dom?
se é teu o eu-lírico

jamais perca teu tom

porém se vem do Espírito
cala-te ante o som

footsteps

what matters is what is left of you
a trail of footsteps in the sand
that the sea didn't claim from the land
giving the right measure of your soul

domingo, 28 de outubro de 2012

sonho sereno

sonho sereno

sonho de cobrir de cores
teus lábios insaciáveis
de amores incantáveis
por vozes pólen de flores

sonho de correr no céu
nu a me perder nas nuvens
pálidas donde elas surgem
lágrimas regando mel

sonho a noite toda adentro
suando tua tez página
com versos por pena fálica
mas acordo sem alento

sirigaitas descalças




afago o cão
e se paro
ladra, pede mais e mais
do fundo do coração
com ganidos
bestiais




de todos os lenços molhados
que enfeitam meu cesto de lixo
sempre que pernas partem de lado
e vozes por capricho gemem

satisfizeram-me tão somente
aqueles que levam meu sêmen




sirigaita descalça
aos meus ouvidos versos
sopra, cansa e perverso
mais a TV a exalta




a sílfide de prata
de ouro e jóias adornada
jazia no escuro nua
fria e dura

a lápide era de pedra
lascada e banhada
asceta que era
de lua pura

fez-se mito ainda na mocidade
despedindo-se na vã idade
da vida vaidética
sem uma cura




atrofiado instrumento da voz
desafinava a tudo e a todos
vivia sem paz em meio a tolos
desde que da vida ouviu-lhe a canção
perfurando-lhe atroz o coração



o poço

do fundo do poço
não posso sair
de todo meu esforço
sobraram só dores
e os ecos no fosso
se partem horrores
quais sombras a rir
congelam o osso


inspirado em Neruda, "O Poço"

sábado, 27 de outubro de 2012

da mediocridade

o anjo caído
por dores partido
cá embaixo anda
rubro a desdizer
do gozo e prazer
que há no altíssimo
pois sem asas santas
não mais alça vôo
e no calabouço
de terra dos homens
rasteja e se esconde
no que é baixíssimo

reinado intestinal

observava impassível
o cortejo fúnebre
o Rei

estivera muito ocupado
durante o banquete real
se empanturrando

não dera por conta
da falta de músicos
e do ninho de ratos
sob a mesa

abdicara da Coroa
doara suas terras
mas só queriam mesmo
sua cabeça

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

a poesia morreu na praia

todo dia a carcaça me olhava feio e pedia
meu nariz e cheirava mal e fedia
infestando de agonia e azia o ar
e olhos marejavam abundantes ao mar
trazendo cardumes de lágrimas
em pequenas redes brancas cálidas
ao esquálido esqueleto a limar

até que um dia nada restou
carcomida se fez e se acabou
na areia virou pó e só

a onda cobriu e lavou

paitrilha

quando em meu caminho surgiu e te encontrei
inda repleto de fôlego na subida
refazendo a sinuosa trilha batida
por incontáveis passos, hoje bem sei

olhei à frente, atrás e ao astro-rei
e à tua fronte graciosa e pequenina
e a meu pai lá no alto, já em sua descida
e à tudo em volta daquela trilha e pensei

"quando pequeno tudo eram colores flores
hoje vejo só pedras, lhe causarão dores"
e pus-me a limá-las e plantar pela trilha

lembro então dos joelhos e mãos calejadas
de meu pai pelo espaço de sua jornada
e o que por mim fez faço por minha filha

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

necroses

necroses (6 amores purulentos)



sepulcro sacro refúgio
da flor que aflora no luto
pouco se diz
afora que seduz
quem no escuro tumular reluz



é essa hora que nunca chega
que quando chega já é tarde demais
no último raiar do ponteiro



zumbis à espreita nas ruas
tez carcomida, olhos vidrados
sem voz, coração aos farrapos
esfomeiam olhares
ébrios de agruras



sortilégios sortidos
sorveram almas sórdidas
como sorvetes vertidos
com gula e sacrilégio



rastejam e pululam vermes
fartando-se de feridas
expostas e repartidas
por lobos em cordeira derme



pequenas vozes cansadas
quedam roucas silenciadas
abaixo d'alta sombra do Parnaso




miniaturas acanhadas

ode ao café

cafeína vai subindo
e os olhos vão inchando
lá se foi a noite em pranto
e saúdo um dia lindo






ode a carvalho

a direita seguia em frente
atrás, Olavo de Carvalho
idéias suas, sorridente
semeava com seu caralho






precipitado

fraquejei em meu caminho
esperei minha queda em vão
meu mundo ruiu, sozinho
vou voando, sem um chão






faísca

a faísca quando solta incendeia
e só mais fogo pode contra fogo
e cá e lá voleia nesse jogo
quem quer que leia e pena devaneia


http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=232777





certo

muita gente faz Direito
porque muita gente faz errado
e aí está um potencial mercado






labuta

a chuva escorregava forte a ladeira
a chaleira assobiava pro café
à pé trazia com labuta o trabalho
assoalho diário que sempre suja






haicai pisoteado

nos olhos nuvens
no pé tragédia funesta
moscas na merda






haicai transitório

sinal vermelho
pedestres em marcha lenta
batom corre ligeiro






psalmo

uma salva de palmas pro salvador
por ele palmo a palmo fui salvo
da selva de palmas dos psalmos
salvo lido engano






paz

a paz
aquela capataz
da morte que jaz
na vida do incapaz


http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=233914





imensidão

cabe a árvore na semente
cabe o amor no homem perverso
cabe o universo na mente
cabe a imensidade no verso *


* baseado em verso de Florbela Espanca e inspirado pelo texto:
http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=229517

o chamado do amor

o chamado do amor
por toda parte ecoa febril
do longínquo horizonte onde se deitam céu e mar
ao burburinho ciumento de trocentas fozes
em nuvens se reinventando em mimos mil
ao doce navegar de olhos rasos de ternura
no eterno bailar do sol cortejando a lua
e de seus raros encontros às escuras
no saudoso suspiro das árvores
lembrando-se de eólias carícias
na passarinhada tecendo no ar trinados
e florindo cores pelo gramado
e eu a tudo insensível e alheio
incólume e distraído por eles passeio
ao som de vozes de Musas delirando de volúpia
cochichadas em fones de ouvido em meio à balbúrdia

era glacial

vestia-me frio de gravata e terno
saindo cedo, voltando descrente
turbilhão de rotina, semente
da desilusão com amor fraterno

fiz-me gelo dentre fogos soberbos
impassível e impassionalmente
congelando falas mansas dementes
queimando mais que o fogo do inferno

já não sinto-me preso ao inverno
os dias correntes são todos quentes
quedo-me em lépidas várias torrentes
por teu colo fremente e terno

sushibar (5 haicais ao molho shoyu)





raio de sol
espia casal pela fresta
inflamado co'a seresta





na urbana arena
degladiam-se por milho
pombo e maltrapilho





vozes em trânsito
rosnam apressadas ao seu fim
silêncio cândido





borboleta morta
no asfalto jubilosa jaz
acena em paz





canta a cotovia
pousada, ressabiada
não quer fotografia



overdose de expresso

classe mérdia


seu burguês fedorento
a preguiça mental te acomoda
em pequenos cômodos sem requinte
onde jazem sarcófagos do lugar-comum
tua crueza de expressão
tua pobreza de pensamento
tua economia de coragem para viver
te aprisionam em cubículos de bem-estar
haréns de sorridentes pelassacos
sempre prontos para concordar
com teu último fétido achado
no fundo da privada





inspirados por texto de amandu:

sonho de outrora
troveja lá fora
aqui dentro eu
sou pura soberba
e deus tristonho


http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=233617


sonhando alto
acorda e cai
em si, e ai!
de sobressalto


http://www.luso-poemas.net/modules/ne ... =900186&com_rootid=900183





mal allah

sharia seja louvada
e enfie uma dinamite no cu de todo fanático
e o leve para seu harém de 72 velhas virgens
para ser devorado no inferno





um dueto com Roque Silveira:


tremeluzindo e piscando
pescando a esmo palavras
do turbilhão que deságua
de vidas em desencanto


http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=233622


fotogramas pelos dias
envernizam a crueza
mas com tempo tal beleza
perde a cor e a magia


deus ex

daqui de onde tudo vejo
parado parece o tempo
não borra a pintura o vento
nem desperta-me o desejo

mas anseio e planejo
por mudança e movimento
porque a isso lamento
frente ao anseio fraquejo

salto para meu fim certo
e quanto mais chego perto
mais rápido tudo muda

toda calmaria atroz
ganha jubilosa voz
na realidade desnuda

cultura sazonal

no tempo em que plantava amizades pelo caminho
meus dias eram longos e cheios de labuta
muito bate-papo regado a cerveja e conversa fiada
e longas horas no telefone pelas madrugadas

o tempo passou e a plantação prosperou
hoje vendo os frutos no facebook a preço de clicks