quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

nada existe além de mim
sou só eu e m'nhas memórias
nelas trilho rumo ao fim
e se apagam, irrisórias

e se apagam, irrisórias
o sustento de meus passos
finda a rota, finda a glória
também dor, também cansaço

também dor, também cansaço
são memórias, apagadas
quando apagam-se olhos baços
ascendem os pés e as pegadas

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

pensamento puxa um outro
de mãos dadas, são um trem
quando partem, um é solto
outro engata a mais cem

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

canção calórica

nada vem do vão da janela
não vem brisa, não vem ela
nada bem está quem precisa
duma ducha, sem camisa

nada tem quem larga e não puxa
- com mais força! e mais, puxa! -
nada além de choro e lamento
quando corta fio o vento

nada bem quem deixa pra trás
o sofá mofado dos pais
nada bem melhor e molhado
quem do mar acena ao passado

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

lâmina cega não corta
mas quem vê logo pressente
pânico e dor na aorta
quando a sente, cego, rente

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

precavida

quem aqui chega
embrulhado em placenta
ungido por lágrimas
não se apercebe de imediato
da aspereza do mundo

mil cicatrizes depois
já seco e erodido
finca com firmeza
a sola do pé no solo
pois teme partir

e fincando se parte
e parte comigo fica

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

da pequenez das coisas insignificantes


daqui a muito tempo
bem longe daqui
alguém olhará para o céu
como sempre se faz
e dentre cintilações várias
perdida
uma pequena estrela
em volta da qual um pequeno
mundo habitado por grandes
pessoas e dramas
há muito morta
brilhará
num piscar
desfaz-se toda lembrança
de tudo de tão importante
que a tantos importunou
perde-se a medida
do fio da meada
e da violência escalada
e de mais tumba descida
ao coro rouco de vozes
um dia grandes, há muito
pela mais reles e pequenina
criatura vencidas

terça-feira, 30 de setembro de 2014

dormem todos e sonham-se despertos
toda luta e rotina, passatempos
vaga mente entre água, fogo e vento
acredita dos sonhos estar perto

quanto mais se aproxima, tão mais certo
tudo mude, ruindo entre lamentos
na memória sepulta a exemplo
do que não se fazer para dar certo

recomeços sem fim na noite eterna
seja rei ou escravo, a mente hiberna
procurando por algo onde não há

há papéis que se dão uns para os outros
seja rei ou escravo, nenhum solto
pesadelo sonhando até acordar